sábado, 9 de agosto de 2014

Roseanas Poéticas 30-35


Trinta e um


“Pois não sim?” Grande Sertão: Veredas, p. 10


Temos que viver o efêmero
P’ra alcançar a eternidade?
No mundo há sempre ruído
E a vida passa em barulhos,
Em cores, em desesperos.
Quando é que havia os silêncios?
Quando o Sol era bem novo
E a Terra não existia?
O barulho está nos homens.
O que havia quando tudo
O que há não existia?
Sei. Falam em um Grande Estouro...
E antes do Grande Estouro,
Quando não havia o tempo,
O que existia então?
Nós respondemos perguntas
Com tantas outras perguntas!
Sim. As grandes ignorâncias...
O conhecimento é um ponto
Por tolos multiplicado.
Tudo e nada.
Pois não sim?

O passado eu não apago:
Eu o crio sempre e sempre.
Vivo em quatro dimensões?
Mundo que rola e enrola:
A política é o horror?
Aquele ponto bem negro
Que nos congela o estômago,
Ai! Que nos congela as vísceras.
Alguém duvida do demo?
Para liderar o povo,
Quem são os tão escolhidos?
Sempre os mais indignos?
Do rio a terceira margem...


A tristeza é cor de rosa
Como um golpe de florete.
E a alegria? A alegria?
Alegria não tem cor:
Tem murmuro de laranja;
Perfume de verde-musgo.

Tudo no mundo é passável,
Quase não fica depois.
Onde as gerações já idas?
Santos e heróis – os de antanho?
O tempo traga o presente
E alinhava o amanhã.
Como a cobra troca a pele.
Vivemos no passageiro?
No que vai ser e já foi.
Vai-se o anel. Fica o dedo?

E o que fica da voragem?
Ah! Há lembranças teimosas
Como o cantar das cigarras.
Pintar os ovos de Páscoa:
Mágico papel-crepom.
Buscar os ditos. De Páscoa?
Escondidinhos. Sei lá?
Pelo jardim. Pela casa.
A vantagem do Alzheimer?
Podeis esconder os próprios,
Os ovos de vossa Páscoa.
A beleza da estranheza.
No mais? É um grande vazio...

Mais perguntas que respostas
Girando num redemunho?
São de opiniões alheias
Tudo o que acreditamos?
Por Deus! Há muitas certezas!
Mas quem deseja escutar?
Eis que o mundo nos confunde,
Mostra-se definitivo:
A grande, grande ilusão!
Ai! O mundo é sorrateiro?
Uma arapuca de tolos,
Fugaz como um tique-taque.
 
Fincar no mundo a raiz,
P’ro alto elevar os ramos.
Nós. Diametrais como as plantas.
Com duas vidas em uma?
Na terra enterramos corpo,
No céu florescemos alma.
Ai de quem enterra os galhos
No lugar só das raízes...

Há que buscar o mais alto.
Há que buscar.
Pois não sim?


Campinas. 15/7/2014


























 Trinta e dois


“Será não? Será? Grande Sertão: Veredas, p. 11


Verba tene; res sequantur.
É o avesso da lição?
O sentido, não se perde;
Mas a palavra é esquiva,
Doidivanas, fugidia.
Há que pescar a palavra
Como quem pesca um marlim:
Sabendo que lutará
Para tê-la controlada.
Dizem: não há má palavra,
Se a puserem no lugar.
Não há palavra mal dita
Se não for mal entendida.
Palavra é infinitudes...

Palavras? São delicadas?
São fonte de vida ou morte!
Em excesso são veneno
E consomem corpo e alma.
Para bom entendedor,
Meia palavra é sufi?
Palavra, puxa palavra?
A que eu digo, me escraviza;
Da que eu calo, sou senhor.
Cadê a palavra amor?

Não desfazemos passados,
Se marcados por palavras:
Esquecemos a razão
De todos nossos conflitos,
Mas não se olvidam palavras
Gritadas com destempero.
Palavras têm uma essência?
Palavras têm um espírito?
Há palavras qual remédio,
E palavras qual veneno.
Há palavras tão alegres
Quanto o saltitar do grilo,
O gosto da framboesa,
O cálido sol de outono.
Palavras são meias quentes?


Quem fala palavras? Cria.
Cria o bem ou cria o mal.
O que contamina o homem
Não é o que entra na sua boca;
É sempre aquilo que sai.
Não! Não se apaga o passado
Daquela palavra dita.
Qual palavra, nos antanhos,
Foi que me feriu de morte?
E qual me ressuscitou?
Sou Lázaro da palavra?
O Verbo me redimiu?

As roupas – lá – estiradas:
Bandeirolas no varal.
Como expressar o poema
Que elas tecem junto ao vento?
A espada, fria, vence;
Palavra sábia, convence.
Poderosas quão trovão
E frágeis como crianças.
Palavras não proferidas
São as flores do silêncio:
Florescem no jasmineiro
Que perfuma o coração.
Porém: palavras sem obras
É já viola sem cordas.
E palavra não é prego?

Muita oração suplicante,
Muda a vontade de Deus?
E repetir muito a prece,
Não tem Deus por surdo ou tonto?
Quem muito quer, muito pode?
Muito pede e pouco espera,
Pois a vontade e a paciência
Sempre são inversamente?

Palavras de muito amor,
Flutuantes qual Veneza,
Serenas como Grasmere,
Cálidas como o arrebol.
E as outras: opositivas...
Palavra de burro é coice?
As palavras ditas voam,
As escritas sempre ficam.
Palavras nada não são,
Mas fazem revolução.
Eu. De palavras transquieto?
Toda a palavra é perdida,
Se d’alma não for ouvida.
Bem mais fere a má palavra
Do que a espada afiada.
Enquanto o mundo rodeia
Os falares de uma terra
Escorregam para outra
E tudo o que se falou
Vai, penetra em novas mentes.
Mundo que gira é Babel?

Mais vale boa palavra
Que ouro de boa lavra.
A chave do almoço é o pão,
Da zaragata é a palavra.
Diz-se: a grandes personagens
Vão bem as poucas palavras.
Quem muito fala, o que cala?

E a palavra que é poesia?
Assim como a torre Eiffel
Foi. Nasceu só para estar.


Campinas. 15/7/2014



 


Trinta e três


“estou de range rede. Eu me inventei neste gosto de especular ideia. O diabo existe e não existe? Deu o dito. Abrenuncio. Essas melancolias.”  
Grande Sertão: Veredas, p. 11


A vida é só um arremedo
Da a vida existencial,
Daquela que vive mesmo.
A vida é um presentemente?
E, pelos cantos da vida,
O caipora, o abadom?
A vida é antes fosse...
A vida é um quero-não-quero?
No escuro das varandas
Perambulam almas tristes.

Vida é desgosto curtido
E um fio de felicidade;
É prestidigitadora,
Dramaturga de mil vidas:
Vida é vida e morte. Só?
Tão fugaz e passageira!
Mas nela nos apegamos
Qual sedentas sanguessugas,
Como carrapatos vis.
Vida é sempre vai passar?

O mundo como teatro?
Onde tudo nada é?
Sim. Terminado o espetáculo
Retira-se o figurino
E desmonta-se o cenário.
Tudo o que era não é.
O foi-se do que se era.

Onde estão os poderosos?
O pó da terra os levou.
Partiram como mendigos
P’ra sua morada eterna.
Certamente será má?
Trocaram o bem eterno
Pelo mal feito na terra.
O ranger dos temporais
É os dentes dos perdidos
Que rangem na eternidade?


Vós mentis e vós matais
Para os que matam e mentem.
E depois não há o demo?
Ninguém sabe o mal que faz?
Bestas na suprema corte,
Ladrões de terno e gravata,
Pedófilos, assassinos,
Estupradores, vilões...
O mundo de bestas-feras.
Negrume nos corações.
Eu sei, resolutamente?

Loucura insana de Loki
Correndo o mundo a tropel.
Demo existe e não existe?
Fora o demo! Basta o homem
P’ra destruir todo o belo,
P’ra corromper todo o justo,
P’ra prender e acorrentar,
P’ra mentir, roubar, matar.
Os homens são cegamente...

O coisa-ruim, capiroto?
O mal que há nos homens. Tão!
O lado mais baixo deles.
Ninguém lá fora, assombrando:
Tudo tudo intimidades;
O eu baixo a sussurrar;
A liberdade de errar.
Não pudesse errar, onde? Ô?
Livre-arbítrio tão falado?
Sem os dois lados de mim,
Que destino eu traçaria?
Autômato do bem?

No homem mau: profundidades?
E mesmo o bom – tem abismos?
O bem e o mal são fáceis:
Como gastamos o tempo?
Como gastamos dinheiro?
A vera e sincera bússola.

Tenho a luz e a escuridão
Numa mesma e minha alma.
No que penso todo o tempo?
Sou a favor contra o mal...
E entretanto mesmo assim
O que me leva a errar?
A escolha tortuosa
De uma alma mal treinada?
Estou me sentindo azul?

E lá sou? De churumelas?
O passado fosse doce?
E nossos sorrisos nas fotos...
Quase o sorriso de outros,
De gente desconhecida.
E uma alegria vicária
Vem, me arrebata e domina.
Da chuva grande de lágrimas
Só ficou tão o arco-íris.

O que eu sendo, assazmente?
Meu Deus é vento trigueiro,
O que enfuna as minhas velas.
Vento de sopro soproso...
Mas nas mãos de quem, o leme?
Nas minhas mãos! Tão só minhas?
O leme nas minhas mãos...
Faço e desfaço meu rumo
E retraço a trajetória
Para onde o vento sopra.
P’ra onde o leme conduz?
A bombordo e a estibordo
Conduzo minha chalupa.
E culpar o capiroto?

O demo é desculpa fácil
P’ra quem vive de desculpas.
Aquele que nunca riu
É história da Carochinha.
O cão tinhoso é eu mesmo
Nas minhas vontades chãs?
O sem-graceiro é inimigo
P’ra alma se precaver.
Quem precisa de oponente
P’ra se sangrar em disputa
É mais valente que eu?
E precisa o sete-pele
P’ra se lutar contra o mal?
São coisas de antigamente...
O temba, tição, tinhoso,
É útil invencionice:
Vade retro tranca-rua!
E lá se foi o sarnento.
Até próxima virada,
Pois o cramulhão só volta.
O temba é repetidor?
Escravos de Jó jogavam
Caxangá: titira, bota,
Que se vá o Zé Pereira.
Os guerreiros c’os guerreiros
Fazem zigue-zigue-zá?
Lá: na guerra e nos exércitos,
O coisa ruim, o ardiloso.
Sei: lutar contra o de fora
É tão tonta tonteria?
Como se combate bate
O mal que nasce de dentro,
Do qual não há vã desculpa
De ser de outra propriedade?
O encardido cão-tinhoso
É apenas o não-eu?

Aceitar sua própria sombra,
Muito sua mesma própria,
Não é signo de grandeza?
Não mais culpar o tição,
Mas assumir propriedades.
Fui eu que quis ou não quis
O que era bom era mau.
Não sou de intemperanças?

Se Deus: olhos noutros olhos
Exige de mim a verdade,
Eu sou vero. Fui eu mesmo?
Na simetria do dois.


São Paulo. HP. 17/7/2014







Trinta e quatro


A gente viemos do inferno – nós todos – compadre meu Quelemém instrui. Duns lugares inferiores, tão monstro-medonhos, que Cristo mesmo lá só conseguiu aprofundar por um relance a graça de sua sustância alumiável, em as trevas de véspera para o Terceiro Dia. Senhor quer crer?” Grande Sertão: Veredas, p.38


Ora! Vá pentear macacos!
Que o inferno é não é?
O inferno é suposto valo
Grande enorme, submergível?
Não, não é este o conceito...
É um castigo queimante?
O inferno não existia,
Foi inventado aos milênios,
Quebra-cabeças da dor
Do eternamente castigo.
O inferno é quente e é frio?
O inferno é e não é...

É um lugar não-lugar?
Ê! Vá cachimbar formiga!
O inferno é remordimento
Sobre o mal do coração.
O inferno é auto-aplicável?
Assim por diante e detrás.
É um lugar insagrado,
Lá no fim do todamente.
O sempre sim, sempre não.
E o inferno são lonjuras
De Deus, as grandes distâncias?
O inferno seja uma hipérbole
Flutuante no universo?
É um sei não sei, lá sei?

Lá no longe bem distante
Minha casa não é minha
Nem é meu este lugar;
Estou só e não resisto:
Muito eu tenho p’ra falar.
Lá no longe. Bem distante!
Me perdi do meu sentido,
Me afoguei em desencantos.
Soubesse eu da outra vida?
Ora! Vá lamber sabão!
 
Contada história em silêncios,
Muitos momentos fugazes,
Muitos espaços vazios;
Pois o inferno é três pontinhos.
Ele existe e não existe
E não só lá, como aqui.
Ele é um indefinível:
Ironia metafórica.
Sei: o inferno é surpreendente,
Eu. Quando quase o entendo,
Sei que já o desentendo.
Vá ver se eu estou na esquina!

Qual a altura do sofrer?
Qual a distância do triste?
O mal diverso e farrista
Eu não desconfio em mim?
Não espio em mim maldade?
O inferno é de Deus: lonjuras.
Céu é desafastamento,
Inferno é desacercar.
O inferno é um movimento?
Sempre p’ra longe da luz?
O que era p’ra ser bom
Se torna fonte de mal.
Deixai atrás, vós que entrais,
Toda e qualquer esperança.
O inferno é definitivo,
Intimamente por dentro.
Ei! Vá chupar parafuso
Para ver se vira prego!

O inferno. Ele. É deslúcido:
Atrapalhoso lugar,
Onde se juntam aranhas
E cobras multiselvagens.
Bem feio já o pintou
Quem de Virgílio foi par.
Mas tantas paragens, tantas,
E as especificidades...
E lá pecador, acaso,
Tem pecado de um só tipo?
Pecado puxa pecado:
Só há multipecadores...


Castigos são desgrupais
Tão somente próprios?
O inferno de cada um é único...
Ora! Vá catar coquinho!
Eis: o inferno é sumamente.
Ele tem personalidade?
É feito de afastamentos,
Como um continente ignoto.
Cada qual tem o seu tal.
Inferno é sobrepujanças?

Ora! Vá plantar batatas
No asfalto p’ra ver se cresce!
O Hades não é genérico,
Mas sim personalizado.
Sei: o inferno é custom-made.
Ajeitadinho de vez
Para o gosto do freguês.
Ê! Inferno é rebuliço?
Inferno é muita balbúrdia,
Sem vistas de serenar.
É choro e ranger de dentes.
Quem desfaz sua maldade
Para do inferno escapar?
Quem desinventa o seu mal?
A eternidade castiga
Quem de maldades se quis.

É claro que há o perdão.
Mas perdão é desinferno.

Ih! Vá dar rasteira em sapo!


Campinas. 19/7/2014




 



Trinta e cinco


Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura." 
João Guimarães Rosa


Sei o infinito que existe
Entre o um e o dois. Bem lá?
Assim como entre dois seres
O infinito de silêncios
Cria uma ponte de ais...
Qual é a grande distância
Lá, entre dois corações?
Há sussurros de silêncios,
Murmúrios de frases velhas,
E relances de esperanças.
Entre os corações, há tudo?
Sim: milimetricamente.
Falando, há um sem fim
Do quê? De infinitas coisas
Somente sonhadas, só.

Cabe o amor neste meio?
Lá, no entrecruzar das almas?
Se não há amor ali,
Que força unirá dois seres?
Certamente que há amor?
Amor variegado e múltiplo,
De amantes, de amigos,
De pais e mães e de filhos,
De artistas, de poetas,
O amor de heróis e de santos,
De velhos e de crianças...
Entre as almas há amor.
Ou simplesmente não há?
O infinito se preenche
Ai! De amor ou de vazio?


Coisas da felicidade
Tenho que deixar aos outros.
Lembra-te de nós melhores
Do que fomos de verdade.
O amor não encobre as faltas?
A duração de uma vida.
Um instante passageiro.
E o amor que intermedeia,
Que baliza e plenifica
Tudo o que na vida vale,
Tudo o que na vida é.
O amor é cola da vida?
É cafuné do Senhor?

Inexistindo o amor
Entre as consciências dos homens,
Não restam só sofrimentos?
Quem, sem amor, faz o bem?
Da vida, o amor é o mel;
Do amor o ciúme é o fel.
Desapressado, o amor vai
Por horizontes distantes.
O amor persevera. Cai
E já levanta, sem susto,
E segue até o seu destino.
Ele é doceternamente...
Um descanso da loucura.

Qualquer amor já nos basta?
O amor pequenino é frágil;
É tão quase um não-amor.
O amor há que ser estúrdio?
Só sei que deve crescer...
Amor é só crescimento
De infinitas ternuras.
É um oceano sem praias,
Infinitude de bem.
Pois o amor amansa os chucros,
Consola os desalentados.
O amor é remédio? É bálsamo.


Sem o amor entre as pessoas
Lá o mundo é um manicômio?
Uma dor sem fundação
De razão ou de verdade?
Amar sem disfarce ou medo,
Não é o que o céu nos ordena?
Como ter as veras pontes
Entre os corações viventes
Sem fundamentos de amor?
Preferir o outro a si:
Alquimia misteriosa
Que nasce no coração.
E uma miríade de anjos
Já ressoam silenciosos.
Amor é lá estribilho?


Campinas. 24/7/2014

Roseanas Poéticas 26-30


Vinte e seis


“Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria. Depois retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinhos... Essa... a alegria que ele quer.” João Guimarães Rosa


Meu rumo sozinho. Vou?
Quem entende a solitude
Na qual abraço o destino,
Tem medo da solidão?
E me vejo em ilha? Só...
Bicho raro. Com certeza?
Não gosto de companhia...
Muito menos se falada?
O silêncio me faz bem.
Quero estar nas quietudes?
A amizade é o azul
Onde se penduram as nuvens;
Vital como respirar:
Mas o ar que entra, logo sai.
Preciso de solidão,
De meus dias sem ninguém.
Não é que eu não ame o mundo;
É que eu o amo demais.
Amor de auto-suicídio,
Bem de fogos de artifício.
Cuido p'ra não explodir.

Há pessoas tão gregárias
Como um cardume de peixes,
Como um bando de andorinhas,
Como as espigas de milho.
Mas há outros qual baleias:
Só aparecem bem pouco,
Jorram alto jato d’água,
E submerge. Retirantes?
De cardumes, eu não sou.
Nem de par sou costumeiro:
Eremita. Monge. Só.
Deus me fez para farol?
Só. Bem lá longe fincado.

O único amor que tenho
É o amor por todo mundo.
Nunca terei uma eleita,
E não sei o que é romance...
Pelo amor e pelo ódio
Os homens muito se perdem.
Quando amo apenas um, eu?
Desamo os outros também;
E não quero desamar.
O amor que quer é prisão?
O amor que não quer, liberta.

Sim, eu crio os meus fantasmas
Como alguém cria um soneto:
Belos, mas indecifráveis.
E amo infinitamente,
Só que sem identidade,
Sem erregê, cepeéfe.
É amor ao portador:
Quem na minha frente, eu amo.
Amor como um cheque à vista?
Sem propriedade ou destino.

Vou te amar eternamente
Na distância do meu ser.
Sei que sou como o horizonte:
Eu me afasto sempre mais
Quanto mais tu te aproximas.
Mas quem mantém a distância
Pode ver os meus ocasos
De vermelhos e lilases,
E contemplar as manhãs
Que ofereço sorridente.
Tantas delas. As ignotas?

Aceita, pois, meu amor.
O meu amor? Qual amor.
O amor que é e não é.
Amor constante-distante,
Que é terno, gentil e abstrato.

E, de longe, tu perguntas:
– E por quem os sinos dobram? –
É: eles dobram por ti.


São Paulo. HP. 10/7/2014






Vinte e sete


“Eu tinha o medo imediato.” Grande Sertão: Veredas, p. 78


Não. Nenhum de nós é dono
Do seu inteiro destino.
Completo e reto. Direto?
Destino é um blusão de lã,
Os adornados com tranças,
Três agulhas tricotado,
Não duas apenas. Só.
Três agulhas tricotando
O que vai ser, que será:
Misteriosagulhamente,
Destino de tricotar?

A primeira das agulhas
É a Vontade de Deus:
O não mudável. O claro.
O inalterável, o perfeito.
O definitivo. É!
Quem pode escapar da morte?
Quem deixa de respirar?
Vontade de Deus é Lei
Sobre o destino de tudo.
Como circundam os mundos?
E funciona o tudo todo?
Vontade de Deus: só ela:
Criando o grande destino,
Inescapável. De tudo.
Deus é um definitivo?

E a outra agulha. Segunda?
– Eu sei bem, pois já testei –
É a vontade dos homens,
Vontade minha também.
Eu que tanto quero quero,
Me empanturro de querer.
Defino com nãos e sins
Os meus caminhos e atalhos;
Outros escrevem, também,
Tanto que será de mim
Como simples consequência?
Todos dependem de todos,
As vontades se entrecruzam,
O versa-vice de tudo?

A composição insólita
Da ilusória independência:
Nunca somos singulares.
Nós sempre somos plurais.
Somos nós. E mais o mundo?

Terceira agulha do fado
É a feita de acidentes:
A simples causa e efeito,
Da operação das leis. Eis!
Leis invisíveis. Os olhos
Inúteis desnecessários.
Leis inalteráveis. Eis?
Que a tudo submetem. Elas.
Todo-poderosas leis.
Leis inescapáveis. Leis!
Sobre tudo e todos regem:
Majestosamente leis.
E ao seu contra e a favor
Bate e rebate o destino
No desconforme e conforme
Do que foi. Podia ser?

Será o destino impiedoso?
Sofrerei fugindo – indo
Como tentou fugir Édipo?
Lá. Fugir para encontrar?
Três agulhas tricoteiras
O mistério tricotando?
Quem dirá o próximo lance?
Que surpresas vão guardadas
Nos fios que tecem as Parcas?
Eu tinha o medo imediato:
Tanto eu não controlo, tanto!
Os reveses se avolumam,
Eu não sei bem o que eu quero,
E o que há atrás do monte?
E o que há atrás do mar?

O destino. Eu entendia?
O que eu dizia que era?
Loisa e coisa bem confusa
De entender de trás p’ra frente,
No anverso do reverso
De tudo o que foi.
Será?

São Paulo. HP. 10/7/2014
Para Claudia Paixão





Vinte e oito


“quem muito se evita, se convive” Grande Sertão: Veredas, p. 9


Quis tanto evitar o demo
Que ele entrou dentro de mim.
Sim. Pois quem muito se evita,
É certo que se convive.
Vade retro. Satanás?
Ai da minh’alma esmoleira!
Centavos de salvação?
Acho. Em noites como estas
É preciso se esconder.
Os grandes todos negrumes...
O diabo só sai de noite?
Lá. Lá! O diabo na rua
No meio do redemunho...

Não! Mais tem Deus para dar
Do que o diabo p’ra tirar.
Fugir do demo é inútil,
Ele está em cada esquina,
Em cada piro e suspiro,
Em cada piscar de olhos.
Grandes engarrafamentos...

Não se apaga a escuridão;
Acendem-se luzes! Eis!
Quem me fez mal me fez bem.
Fogo e vingança exterior,
Dentro: luz. Misericórdia.
Se penso em quem me fez mal
Sou eu que me faço mal?
Pensamento de vingança
É porta aberta p’ro demo:
Então não sei, não sei. Sei?

Iniquidade fugida
É iniquidade sabida!
Pois do mal há que esquecer,
Não dele correr. Fugir?
Eu fujo do que eu enxergo,
Mas do que eu esqueço, estou livre.
Do mal? Há que desistir.
Uma leveza de alma
Que não aprendeu pecado.
 
E pecado é danação?
O vije-cruz dos infernos?
Pecado é perda de tempo,
Andança nas contra-mãos.
Ô! Pecado é só caroço!
Gôsto de fruta madura?

Deixei de achar que eu sabia
Com quantos paus – a canoa?
Sei que olhei miudamente
Na hora que o sol se punha.
O instante em que a borboleta
Junta as asas p’ra rezar.

Talvez o absurdo de tudo
É que tudo é inteligível:
Ou entendo co’a cabeça,
Ou é a barriga que entende?
Sei coisa – supremamente:
O céu é cheio de bem
E cheio de mal o inferno.
Se volto as costas p’ro demo,
Nos olhos luz luzidia
É o que brilha e o que rebrilha,
Sem treva, sombra ou escuro.
Da maldade! Deus me livre?

Quero o doce bom do bem,
Das escolhas acertadas:
Do florescente miúdo;
Não do grande condenável.
O amor lépido e fagueiro
Nas ações do dia a dia.
Serei assim? Ou assim?
Certamente serei. Sim?


São Paulo. HP. 10/7/2014




Vinte e nove


“Nonada.” Grande Sertão: Veredas, p. 9


E fui eu assoviar?
Chupando cana, teimoso.
Quem disse que não dá para?
O difícil é p’ra já,
O impossível leva um tempo.
Tudo o que é foi impossível?
A fé remove montanhas?
Acreditar, muda o fado?
Esperei pelo impossível
E ele me veio de chofre
Numa impossível manhã.
Lei antiga: olho por dente
Dente por olho, ao revés.
Deus não joga: fiscaliza?

Dentro de mim: um futuro.
Um latejamento certo,
Uma impossibilidade,
Uma vírgula? Nonada.
Sei não? O mundo é um hospício?
As folhas secas do outono
Queimadas em montes altos;
Incensando ruas, almas,
Num quase de antigamentes.
Com fumaça preguiçosa:
O perfume de não sei,
O cheiro de me esqueci.

Para usar taça de chá
É preciso o chá beber.
Pode-se depois por vinho.
Para pôr quatro girafas
Num fusca com elefantes,
É mister tirar os estes
Para que caibam aquelas.
Tudo é ou-ou? Não e-e?
A vida é uma escolha múltipla?
Quando os nove-fora: nada.
Inquietudes do universo:
De ser barrigudo aos trinta
E sem barriga aos sessenta.
E tantas vontades torpes,
Tão tristes quanto pés feios.
Sim, os homens muito altos
Têm a calça jeans na canela.
As vidas desconhecidas;
Sim. As elas outras tantas.
Variadas como vitrines?
Vida segue como segue,
Pois é uni duni tê,
E mais sala mê minguê.
Um sorvete colorete
Para mim e p’ra você?

Fui buscar o meu sentido
Nas rimas da minha infância.
Achei bela morena
Que no Tororó deixei.
Eu já esquecia quem era?
Aproveita, minha gente,
Que uma noite não é nada,
E quem não dormir agora
É porque sofre de insônia.

Queria saber de tudo
Para não errar em nada.
Então cessava o sofrer?
Porém? Eu sou o que eu sou,
Sem pôr nem tirar. Assim?
E onde vive minh’alma?
Estou para eternidades.

De onde vêm os meus suspiros?
Que fazer d’alma cansada?
Quem ficar cansado agora,
Dormirá de madrugada.


Campinas. 12/7/2014
Para Robert Miessler, in memoriam.








Trinta


“Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele – dizem só: o Que-Diga. Vote! não...”  
Grande Sertão: Veredas, p. 9


Eu me ralei e esfalfei?
Ai! In perditionis via.
Culpa do demo? Bem fosse...
O Tinhoso não alcança
Minhas profundas vontades.
Sou eu mesmo que me dano?
O que me afasta de Deus.
O que me afasta do bem?
Há o Ente mau que sussurra
Bem no coração dos homens?
Junto da veia vital.

Se o inimigo é externo
Faço guerra c’o de fora.
Mas se o inimigo está dentro,
Faço guerra com mim mesmo.
Eu. Será que sou o outro?
Um recheio do Quê-Diga
Num sanduíche de eu?
O eu único é dois.
Ou é vertente malvada
Que deságua no meu rio?
Pudesse eu ser só bom. Viva!
Alvísssaras esperanças?

Por que o Cão, Anhangá,
Operando sorrateiro?
O Demo é formiga preta,
Sobre uma pedra bem preta,
Numa noite muito escura.
Não se contempla a danada,
Mas ela opera. Sagaz?

O Canhoteiro, Canhoto,
É sombra minha? De mim.
O Danoso é conhecido:
Morasse ao mesmo endereço?
Se sim, se não, eu sei quê.
Porco de asfalto. Satã:
Guardião do livre-arbítrio,
Defensor das liberdades
Muito humanas de pecar.
O Pernicioso, Nocivo,
Faz cá de nós morais seres?
Se não, só bem nós fazíamos?
Marionetes do correto,
Sem sim, sem não, sem talvez?
O Canho, Mastim, Canalha
É bem menos tão terrível,
Ou é terrível demais?
Ele é eu mesmo eu. É?
Sei que é. Mas outrosado.
É o dessemelhante. Ele.
Dessemelhantemente.
Jurisprudência infinita?

Não há Capeta, lá fora,
Pior que o Demo de dentro.
Ninguém me mandou fazer
Qualquer dos males que eu faço.
Eu não sou um. Eu sou dois?
Um que constrói o inferno,
Outro que semeia a paz.?
O Tinhoso só existe
Para que eu possa escolher
Entre o de cima e o de baixo.
O Cachorro? O Mastim?

Na luta entre a luz e a treva
Eu ganho ou perco o meu prêmio.
O Ardiloso, o Biltre, o Perro:
Informes formas do mal.
Ai! Eu sou uma legião?
O Maldito não é ser,
Não, não é má existência:
A de existir de verdade
Com garantias de euzisse.
Dimensão de mim que é,
Faceta do meu eu ser.
O Perdido sou só eu.

O Überich me convoca
E o Es me sussurra n’alma.
Qual escuto? Qual atendo?
De minha escolha dependo:
Serei escravo ou liberto?
O Demônio, bem eu sei,
É o egoísmo insistente?


Campinas. 14/7/2014

Roseanas Poéticas 21-25


Vinte e um


“Lugar não onde” Grande Sertão: Veredas, p. 72


O passado é um lugar
Lugar distante: não onde?
Sim. O lugar do passado
É um sorriso maroto
E uma lágrima furtiva.
Lá. Onde tudo já foi.
Já foi? Mas em que sentido?
Brinco agora com meus baldes
Na praia das minhas férias.
Santa Terezinha. Lá.
Os cômoros tão gigantes
De descer de papelão.
Gôsto de alegria e areia.
Ela: crocante nos dentes,
Soprosa nos fortes ventos.
Já desço as encostas brancas
E já rolo pelo chão.
Já é ontem outra vez?

O passado é inescapável
E nos assombra p’ra sempre,
Ou nos enche de alegria.
Aniversários sem fim.
O Natal das mil magias,
O ho, ho, ho de Noel.
O passado. O passado?
Um lugar não onde. Onde?
Dentro do meu coração.
Lugar de tempo perpétuo
Que existe ao meu bem querer.
Um lugar não onde. Onde.

Passado. Lugar não quando,
Sempre presente. Vivíssimo.
Lugar onde sempre estou
A caminhar as veredas
Das lembranças alquebradas
De tudo o que eu fui. Que sou?
Minhas trilhas conhecidas
Onde sempre não andei.
Onde nunca não estive.
Quebra-cabeças de mim
De cores tão variegadas.
Encaixo alguns pedacinhos,
Mas há grandes vão sem nada
Que preencho com perguntas
E bocejos de tristeza.

No passado eu não sabia
Que tudo era já passado
No momento que que ocorria.
Viver no presente? Pode?
Tudo devir e porvir:
O presente não existe?
Ele vai vir... e passou.
É um não-lugar. Não-tempo.
O presente é sempre antigo.

E na fluidez do agora,
E que agora já é antes,
Eu percebo o inevitável:
Quando for a minha hora
Ela já terá passado.
Morrerei no antigamente.


São Paulo. 2/7/2014






Vinte e dois


“Ao doido, doideras digo.” 
Grande Sertão: Veredas, p. 74


Já fui à Lua? Três vezes!
Mas voltei uma das vezes.
A lua: tinha apagado
E me deixou sem luar.

Vi a Lua, pirracenta,
Cobrir o Sol num eclipse;
Ficou só um anel no céu,
Anel de fogo e poder:
A lua era minha noiva,
Pudica e arrebitada.
Sobremaneira tão casta?

Todo o dia o sol se banha
Lá nas águas do oceano.
Ele desvia das ilhas
Para não se machucar.
E quando ele sai do banho
É o oposto do contrário?
O que poderia ser.
E a gente vê a aurora,
Que é a toalha do Sol.

Quem disse que a vida é justa?
Américo Pisca-Pisca
Quis reformar tudo tudo.
Não se quer findar o mal?
Tudo só de bom não fosse?
Como a doce bergamota
Lança perfume no ar?
O vermelho de tomate
Do qual se veste o caqui?
Pois, então? Bambalalão.

Correu um boato amargo
De deixar a boca estreita.
Coloquei um grão de açúcar
E virou um elogio.

Na casa dos meus botões
Abriguei com compaixão
Desabrigados da enchente.
Foi o rio que transbordou.
Foi a chuva lenta e grossa.
Então o olho da agulha
Chorou. Hein? De ai, meu Deus!
A menina dos meus olhos
Brincava de esconde-esconde.
E lá vou eu, lá vou eu,
Pego quem não se escondeu!

Onde estava o Pererê,
Que não entrou na garrafa?
Por que o passado é passado?
Por que o futuro. É futuro?
Na rede dormi c’os peixes!
Descansei de tanto ser.

Inverti os meus problemas
E troquei os meus bocejos.
Tudo ficou bem mais fácil
Como o ovo que o sol pôs.
E não fosse esta canseira,
Eu trilhava o fim do mundo
Só p’ra ver a moça-prenda
Do rincão do mais-além.

Eu? Se eu acredito em Deus?
Sim. Eu acredito em tudo!
Em todas as coisas raras
Que Kafka quis esconder?
No princípio era a barata.
Não havia detefom.
Então. Gregor Samsa foi.


São Paulo. HP. 2/7/2014






Vinte e três


“Queria novidade quieta para meus olhos.” 
Grande Sertão: Veredas, p. 75


Quero novidade quieta
Para meus olhos cansados?
Sei que julgo o mundo todo
De acordo com o que vi
Ou conforme o que vivi.
Como crer no inusitado,
Como perceber o novo?
O futuro me cutuca
A onça com vara curta.
Coração dando recados...

Estudava a solidão;
Dela veio alguma coisa
Desigual do que eu sabia:
Não logrei ficar sozinho,
Só sem ninguém ao meu lado.
Dentro de mim: multidões?
Gente tanta de outros tempos
E de outros mil lugares.
Coração dando recados
E a alma em. Cogitações?

Venha o futuro enrolado.
Doce. Como rocambole.
Quero novidades quietas
No coração benfazejas.
Coisas novas que são beijos
Da vida no coração.
As novidades dos anjos,
As surpresas formosuras
De um futuro que ri.
Peito de vidro moído.
Suspiro de antagonismo.

Se eu queria a paz, adiante?
E quem não quis? Quem não quer?
Vida desiste do ui?
Rosa existe sem espinho?
Já logo tropeço em tudo
E os membros não me obedecem.
Vida feliz, cá na terra?
Como assim, que não há bruxas?
Minha novidade quieta
Vem cercada de tropeços,
Para susto e escândalo:
O frouxo desassossego.

Os importantes defeitos
Desta vida, eu não esqueço.
Deus não quis que boa fosse;
Se não que: espinhenta brava.
Viver não é sossegado.
Vida cada vez mais longa,
Mais cheia do que já foi,
De lembranças impregnada,
Cheia de era-uma-vez.
E o que vem: é sorrateiro?
É paga de dias idos,
Ou abono de indulgências?
Movendo no puro ar
Anseios de dias breves
E despedida cabal.
A hora certa: já fui.

E que a vida não separe
O que a morte reuniu.


São Paulo. HP. 2/7/2014






Vinte e quatro


“Tem horas antigas que ficam muito mais perto da gente do que outras, de recente data.” 
Grande Sertão: Veredas, p. 73


Nem não suspirei. Que nada.
O que se foi já deixou
De ser ardido ou doído.
Como o campo já ceifado
Eu já me encontro esgotado.
Em paz. Pois já sem desejos?
O que eu queria, já tive,
E o que quero a morte dá.
Sombras cada vez mais longas
De quem eu era. Quem sou?

Dias verdes em Gramado,
Colher framboesas no pé.
Junto ao riacho, os morangos.
Torta de nozes da vó.
As horas antigas minhas
Perfumadas de azaléas
E pinheiros balançantes.
Os miosótis floridos...
(Mas... o que são miosótis?)
Oniscientes paredes
Viram lágrimas e risos,
Nossas íntimas certezas,
Tênue sombra de esperança
Que nos leva sempre adiante.
Sou cada vez mais pretérito?

Lá. Na luz onde eu vivia,
Sem o breu do entendimento,
As coisas eram mais plenas,
Por imperfeitas e rotas:
A bênção do não saber.
Paraíso é esquecimento.
Sim? Há que cruzar o Letes...

Da vida os variados tristes
Emudeceram em mim.
A exatidão da tristeza
Se perdeu em desconsolos
Já tênues como a neblina.
Pirilampos me rodeiam
No negrume do passado.
Lembrança de meia-lua
E muitas demais estrelas.
Pedras de basalto: úmidas,
Pisadas por pés antigos.
Jogos de croquet na grama
E grandes sapos noturnos.
Tudo vibra aqui bem perto,
No longe que foi um dia.
O passado é um doce-amargo?
Pois sim. O passado é um.

A bênção de não saber
Gira o pião da alegria
De todas as juventudes.
Já a infância é o astrolábio
No mar ignoto da alma.
Sou aquilo que disseram
Que eu era desde a infância.
Eu sou uma narrativa?
Lá, enfim, nos claros nadas.


São Paulo. HP. 2/7/2014





 


 
Vinte e cinco


“eu não sentia nada. Só uma transformação, pesável. Muita coisa importante falta nome.” 
Grande Sertão: Veredas, p. 80


A dúvida da certeza.
Recolhido rebuliço,
De trás para frente, assim.
De outra feita, me aprumei
E pensei que tudo era.
Mas o que é? O que é?
A vida é jogo de sombras,
Esconde-esconde co’a morte.
É. Muita coisa importante
Falta o nome do que é.
Só transformação, pesável,
Nas vísceras do interior.
Poucos arrependimentos,
Lágrimas poucas. Sorrisos.
Tudo embaralhado atrás;
Conformidade que foi?

Da outra banda do rio
Se foi-se chegando a balsa,
Molhada como um suspiro,
Resvalosa. Obediente?
A balsa seguia o arame
Puxado com pleno esforço
Com manetes de madeira:
O progresso gotejante
Do cruzar o rio dos Sinos.
Sim. O coração goteja?
Ao cruzar o rio da vida?
Se há muito para trás,
Sei que há bem mais para a frente:
Lá, cá? Infinitos novos.

Eu. Eu? Padeci do quê?
Descontinuadas tristezas,
Tristes como o colorido
Das lápides tristes? Tristes.
Lápides azuis e rosas
Desconformes com a morte.
Revestidas de azulejos.
Ali. Com flores de plástico.
Tudo tão incongruente!
Como uma escola de samba
Em corredor de hospital,
Gravidez de doze meses,
Guaraná de Coca-Cola,
Ou espirro para dentro.
Diametralmente oposto.
O outro lado de cá?

Fiquei a ver lembranças
Como na lanterna mágica.
De tudo o que foi não foi
Tirei uma lição. Ão?
Despedi-me do passado
Eu? Como quem quer voltar:
Tanta coisa lá ficou?
E o futuro do pretérito,
De que tamanho será?
No futuro: que lembranças
Eu guardarei no passado?
Quanto de mim será eu?
E recordações vistosas
Embalarão o meu sono?

Quanto de mim viverá
Quando eu viver no  futuro?
E quanto é que já serei
Como um tomo terminado,
Eu: um redemoinho verde,
Aceno de despedida,
Perambular de ilusões.
Eu?


Campinas. 7/7/2014