terça-feira, 9 de setembro de 2014

Roseanas Poéticas 36-40


Tinte e seis


Hem? Hem? Ah. Figuração minha, de pior pra trás, as certas lembranças. Mal haja-me. Sofro pena de contar não...” GSV, p. 11


Pois: o universo se estica
A cada roupa passada?
Se eu não tivesse lembranças
Não haveria passado?
Mal haja-me! Já não sofro?
Lá – bem pouco tempo atrás
Todos os artistas fumavam
E tinham os dentes tortos.
Certas lembranças agudas
Me dizem que envelheci.
Don McLean cantando era
Algo tão solene. Era?
Naquele dia em que a música
Morreu e ele fez canção?
Joan Baez, pluricantante,
Denunciava as injustiças
E suplicava o amor.
Eram tempos inocentes?
Nunca houve tempos puros
Pois o mal sempre existiu.
A pureza está por vir...
Mas era um mal bem mais simples,
De se explicar numa frase.
E se podia cantar.
Mal antigo era sinfônico?

Andei por muito lugar
Assombrado, espavorida,
Mas nunca vi um fantasma.
Os abantesmas se ocultam
De quem neles não dá fé?
O demo somente existe
Para quem nele acredita?
Talvez eu isso soubesse...
Talvez tivesse resposta.
O impossível nos cerca?
O improvável se avoluma?
Antes tudo agora fosse
Com o mesmo bem que era...
Eu não sabia de nada,
Mas era bem mais feliz...
Passado, é bonitamente?
E qual é a diferença
Entre um grande diplomata
E uma também grande dama?
Vejamos: o diplomata,
Quando diz sim, quer dizer
Talvez. Quando diz talvez,
Quer dizer não. Se diz não,
Não é um bom diplomata.
Já em relação à dama:
Quando diz não, quer dizer
Talvez. Quando diz talvez,
Quer dizer sim. Se diz sim,
Pois... não é uma grande dama...

Como o sabão lava o sujo,
O perdão lava o pecado.
E as milongas de justiça
Apaziguam as almas.
A nobre Mercedes Sosa
Quando cantava. Era o céu?
Era como se a Justiça
Abrisse alas entre os séculos.
E se se cala o cantor
Certo: cala toda a vida!
Mas por que eu digo isso?
É porque o mundo está triste
Por lembrar de tantos males,
Nas as vertigens das eras,
No rebuliço dos tempos.
Lembranças más se distendem?

O três de maio de Goya
É genial, mas é arcaico.
As cenas contemporâneas
São bem mais fulgurejantes.
O terror expandeceu-se
E o medo se dissemina.
Não dá um frio na barriga
O aquecimento global?
É possível ser feliz?
Só sem a consciência plena
Do mal tamanho que encobre
O que há de bom nas consciências,
De puro nos corações.


Retro sei: o mal que é feito
É menor que o mal que é.
Pois o mal que o demo gosta
Não é o ele da ação má,
Mas o do homem que é mau.
Não o mal simples, do ato,
Mas o complexo, da essência.
Esta a sua trajetória:
Cada vez mais para o fundo.

Hem? Hem? Ah. Lembrança torta
Que grande pena que dá...


Campinas. 24/7/2014









Trinta e sete


“A gente cresce sem saber para onde.”


Eu queria, belamente,
A poesia pura e boa,
Desfocada: qual lembrança
De infantis felicidades.
A minhas, ou de meus filhos,
Tanto faz e tanto fez;
Mais para cá. Para lá?
Toda infância é uma só!
Toda infância é perfumosa...
Ou a não ser que não seja,
Por má violência ou crime,
Por barbaridades outras
As cujas o demo aplaude.
Mas a infância bem feliz
A gente vê desfocada,
Qual paisagem na neblina,
Ou vista de olhos chorosos.
Exatidão entristece.
Tudo alegre é fugidio
Como o pio fugaz do cuco.
E também do bem-te-vi?

Lugavozônios do André:
Altos ou baixos estavam,
Indicando a energia
Do salto, corrida e pulo.
Regulamento da alma,
O forte-fraco notáveis.
Eles: os percebimentos.
O mundo uma arena: circo.
De cores rodopiantes,
Surpresas e sustos. Risos.
Circo: todo faz de conta.
Menos os malabaristas,
Os trapezistas e o resto.

 Alexandre, com doze anos,
Carregando o Dom Quixote
Para os recreios da escola.
Volumosa narrativa:
As hilariedades mis.
Findou as muitas leituras?
Livro nunca se termina,
Por mais que ao ele se finde.

Fio de linha amarradinho
Na cintura da cigarra.
E lá vai ela, empinada,
Tão qual como uma pandorga,
Voejando a liberdade
Nos mesmos tempos bem curta
E também bem divertida.
Ideação de criança.
Bole e rebole. Tem fim?

Toda infância é esperançosa?
Os dedos dos pés no barro,
Olhos e ouvidos na chuva,
Os cabelos em vertente.
Tudo numa baita chuva.
Na grama se escorregava,
Mãos e joelhos tingidos:
A verdura do brinquedo.
Pelada no chuvaréu:
Não era não de jogar,
Era chafurdar molhado
Caindo sempre que quando
Para mais se remolhar.

Os risos desnuviosos
De uma alegria simplíssima.
Toda dor era somenos,
Coisa de adulto-velhices.
Tinha joelho ralado,
Picada de marimbondo,
Grudices de carrapatos,
Insolação, pesadelos.
Os sonhos repetitivos
De gritar por pai e mãe,
De ficar mudo p’ro grito,
De suar bem frio. Terrores?

 Relance do corredor,
Laz amarelada acesa,
Um novelo de lã vem
Desenroloso, malvado.
O rastro de fio p’ra tás.
Então se punha a crescer,
Enormemente! Estufoso!
O pavor sem voz me alçava,
Chorava sentado. Hirto.
Surreabilidade toda,
Repetitiva, capeta.
Tem sentido este terror?
O surreal pavoroso?

Sofrer de infância é esquecido,
Se não for em demasiado.
Se corre, brinca e se ri
E as dores já são antanho.
Beijo de vó cura tudo,
E os anjos cantam novenas.

Tinha as bolhas de sabão
Em canudos de mamona.
Balouçantes, tremulosas,
Feitas só de quase nada.
Revestidas de arco-íris,
Avoejantes. Tão mágicas!
E bolha dentro de bolha:
Surpresamente lá presa.
Travessuras. Os enfins...

Lavar o carro do vô
De água com querosene,
E ganhar o trocadinho
Para comprar figurinhas.
As elas! Surpresas muitas,
Das que tinha e que não tinha.
Abrir o envelope: festa.
O bolo de figurinhas,
Tidas dupla ou triplamente,
Carregado para a escola,
Para as calçadas, as praças:
Trocar pelas das lacunas,
No negócio negociado,
Ou lá batendo os montinhos
Para ver o que virava.
P’rá quem torce Deus, na sorte?

 Esquiávamos no rio.
O Guaíba. Esparramoso.
Navegava-se sem vento,
Num prumo plano e lisinho,
Uma planície ribeira,
Se se ia pelo Conga,
E pelo Furado Grande,
Também pelo Furadinho.
No Saco da Alemoa,
Entre a dita Ilha das Flores
E a Ilha dos Marinheiros,
Também era esconderijo
Dos ventos tumultuosos
Que, subindo alvoroçados,
Do sul da grande Lagoa,
Quase nos roubavam grandes
E memoráveis passeios.
Ventos soprosos-soprosos.

E não havia os carrinhos?
Fabuloso trem elétrico?
Bolinhas de gude. Elas!
Mas tudo isso é muito longo,
Pertence a outra poesia...
Não é a infância infinita?
Para a frente e para trás?
Ela é, ela é, é!
Tão desmesuradamente.


Campinas. 29/7/2014
Para André Danesh e Alexandre Nabil Beust

























Trinta e oito


“Felicidade se acha é em horinhas de descuido.”


Carrinhos eram Matchbox,
De rodinhas bem ligeiras
E mil cores e formatos.
O brincar podia ser:
Devagar, estacionado,
Pelas ruas dos tapetes;
Garagens sob as poltronas.
Os cinzeiros eram praças,
Ou balsas, cruzando rios.
Igual ao mundo real.
Igual menos a maldade.
Mas eram também velozes,
Nas grãs pistas amarelas,
Com direito a saltos, loopings,
E disparadas certeiras.
O domínio da alegria.
Possuimento do riso.
Aquilo: lá e acolá.

Os carrinhos. Os Matchbox.
Por onde foram sumindo?
Ai! Onde vai parar tudo
Que perdemos lá na infância?
O medo de lobisomem,
O medo de assombração?
Num certo colo: a cabeça;
Na cabeça: os cafunés.
Infância: é lá só doçuras?
Queria dizer que sim,
Mas, triste, bem sei que não.
Há muita infância pranteada.
Há muita infância atroz.
De chorar eternamente?

 Mas eu tinha um trem elétrico
Que o vô trouxe da Alemanha.
Märklin. Perfeito! Tão eito!
Circulava entre estações,
Carregava seis vagões,
Para trás e frente ia.
De Porto Alegre a Gramado,
De Gramado a Nova Iorque,
De Nova Iorque a Paris.
A Tóquio, Praga, Munique,
Bariloche, Buenos Aires,
À Lua, Saturno, Vênus,
Mercúrio, Júpiter, Marte.
E infinitas dimensões.
Ainda não existia
O trem que levava a Hogwarts...

Draco dormiens nunquam
Titillandus. É. Pois é.
O trem passava sob livros,
Abertos em cabaninhas.
Outro trem mais erudito
Não houve e não haverá.
Cruzava os mundos de Mann,
De Schiller, Goethe, quem mais?
Todos sempre em alemão.
Meu trenzinho poliglota...

Se cruzava com carrinhos?
Pois que sim! Os carregava!
E areia, feijão, arroz.
Os grãos das romãs: rubis.
Cacos de vidro: diamantes!
O mundo não acabava
E eu era rico, bem rico:
Um castelo não sei onde...

Tive sarampo com febre,
E catapora com febre
E febre de sol demais.
Não tive a febre do ouro
Porque eu já tinha um trem
E um castelo... Onde será?

 Moldava bolas de barro
E enfiava nelas folhas:
Iam todas para o fundo.
Quando o barro dissolvia,
As folhas, tantas, voltavam:
Eram submarinos, todas,
A mergulhar e a voltar,
Em viagens misteriosas.
A piscina se manchava,
Algum adulto ralhava,
Mas eu fazia de novo.
Teimosia de criança
É, lá, certeza de vida?

Tio Érni nos ensinava
A fazer veleiros ágeis:
Uma lasca de madeira
Aplainada e bem bicuda;
Um talho no meio, embaixo,
Fixava a quilha. Outro mais,
Na popa, fazia o leme.
Palito fixado em cima,
Papel de pão recortado:
Lá estava a vela: funável.
Dez centímetros de largo,
E as náuticas surpresas:
Zigue-zagues inclináveis,
Velas na água, molhadas,
E o resgate com vassoura.
Mas porém não naufragavam.
O trenzinho também não.
Trem e barcos: semelháveis.

Tia Marga era o carinho,
Tia Binha a elegância.
E tio Ico me impedia
Ai! De ser filho do avô.
Mas neto tem mais vantagens;
Neto é filho duplamente
De pai que já foi treinado
E passou pelas paixões.
Fazer geleias com a vó,
Lavar o carro c’o vô,
Tudo nas luminescências
De dias bem infindáveis
Das altitudes da Serra.

 Passeávamos nos trilhos,
Da via férrea esquecida;
Recolhíamos os cravos,
Grandes – de crucificar.
Passos largos nos dormentes,
Passos curtos sobre os trilhos.
Caídas folhas de plátanos,
Redentas. Pentapontais.
Os plátanos me emocionam:
Respeitam quatro estações.

É: a infância tem seus cheiros,
Tem seus gostos e seus sons.
Leite condensado, sempre,
Com sagu, morangos. Puro.
Cozido: de comer quente
Só com creme de baunilha.
Tinha o chá de erva cidreira
Perpétuo na geladeira.
As folhas sendo queimadas
Em chamas recrepitantes
E fumaças vaporosas:
Cheiro de melancolia.
E o dos lençóis e cobertas,
O dos armários fechados,
O das roupas dos avós...
Universo de emoções
Com só medo de fantasmas,
De tudo que não existe,
De tudo que não faz mal.

No mais: eram os deleites!
Gostoso: tirar espinho
Que encravou no rodapé.
Agulha, meticulosa,
Escarafunchando, ela,
Na tridimensional pele.
Doía e não doía.
Era o carinho espetado,
O amor escarafunchante,
O cuidado liberal.

Sim. Pois. Era tudo isso.
E muito mais. Que eu não disse.


São Paulo. HP. 30/7/2014






















Trinta e nove


“Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum!” GSV, p. 11


Ai! O homem dos avessos!
Ai, ai! Os crespos do homem!
O anticristo pessoal,
Privado de cada um:
Personalíssimo monstro...
Todo mundo é Dr. Jekyll?
Todos têm seu Mr. Hyde.
A maldades bem malvadas
Nascem da transformação?
O homem vira ao reverso,
Se manda destrambelhado,
Virando o mundo ao avesso,
Jogando sal pela terra,
Pisoteando todo bem.
Monstro mor, alucinado,
Despossuído de siso,
Alucinado de demo,
Embriagado de fúria.
De onde vem o mal que é nosso?
Por que brota em mim o ódio,
A indiferença, o rancor?
Sou eu mesmo que me salvo?
Sou eu mesmo que me dano?
Eu mesmo, nos meus avessos?

Não, o mal não entra em mim;
O mal já está cá dentro,
Embutido em meus pensares:
Ei! Sorrateiro tinhoso.
Bifurcação de minh’alma
Que leva ao céu e ao inferno,
Tão atropeladamente;
Embaralhamento meu.
Subo ou desço desconforme,
Arrebatado por mim,
Nos escolhidos caminhos.
É Deus em mim. Ou o diabo?

 Não houvesse escolha, livre,
Haveria o nosso arbítrio?
Diante de Deus me coloco.
Escolho o bem ou o não-bem?
Não existe o puro mal
Bem lá: nas infinitudes.
O mal é, do bem, ausência;
Vero, mesmo, só o bem:
Todo o mal são as antípodas,
Todos os tantos reversos,
Contraluminosidades.

Toda luz e toda sombra
Existem dentro de mim.
Sou sempre eu que me escolho
Para subir ou descer.
O demônio é o egoísmo
Que está sempre a latejar:
A dor de dente da alma.
Certamente, para baixo,
Todo bom santo me ajuda.
Não preciso do demônio:
Eu sei me danar sozinho...

E é por eu poder fazê-lo
Que sou julgado nos céus,
Que minha alma é pesada
No julgamento de Deus.
O mal é falta do bem,
Como a escuridão é falta
Da luz – pois esta é que existe.
Como um buraco é a falta
Da terra, vera, existente.
Sei: o mal é só desbem...

Sim! Eu me unjo ou me enforco!
Capiroto em meus sapatos,
Satanás a me encarar
Quando me olho no espelho.
Isso eu não adivinhava
Já nas fábulas de Esopo?
Não, não há o mal que existe,
Só há o mal que eu decido.
Tudo o que é bom vem de Deus.
O que é mau vem de nós mesmos.
Contranegativamente.
Aos pulos, sustos e gritos.

 O homem que escolhe o bem
É só lisuras, assopros;
É um quindim no paraíso,
Braço direito de Deus.
O homem que faz o bem
Endireita um pouco o mundo,
Remenda as dores da vida,
Dá sobreexistência às almas.
Todo benfeitor é filho
Dileto de nosso Deus.
Sim: ele escolheu certo,
Se afastou de todo mal.
Sim: sabe que o mal existe,
Mas o conselho do mal
Não é o que ele segue.
Não. Ele escolheu a luz.
Vive nas luminescências
Das auroras boreais
Tremuloresplandecentes
Sobre as colinas da alma.
Tão bem assim. Tão bem. Tão.


São Paulo. HP. 07/8/2014
Para Paulo Roberto de Araripe Sucupira
























Quarenta


“É briga enorme... É um homem... Vou indo pra longe, para a casa de meu pai...” GSV, p. [116]

As casas tantas, as muitas!
Embelezando terrenos,
Alindando tudo em volta
Em belas jurisprudências
De extremo supra-gosto.
Tudo na lindura alegre
Do que é velho e muito novo,
De mãos dadas, assertivos.
Sempre a madeira nos móveis,
De ancestrais demolições,
E os belos quadros! Sorrisos
Espalhados pelas salas.
Várias, tantas, muitas casas:
Cada outra bem mais bela
Que a uma que já havia.
A sofreguidão de lares.
Busca do lar verdadeiro?

As casas muitas, as tantas...
Ubá e Mogi Mirim,
São Francisco e Florianópolis,
E Santiago e Açores...
E, no futuro, onde mais?
Certo que a Morada Eterna
Já a têm em construção.
Aquela. Na eternidade.
Não requer manutenção?
Morada que, de tijolos,
Tem o amor e a compaixão,
E cuja argamassa eterna
É a fé e a humildade.
A casa de encantamentos,
Iridescente de luz.
Não. Não uma casa a mais,
Mas A casa. Tão só. Ela.
A casa de bem e amor
Que espera todos no céu,
P’ra morar na eternidade.
Casa que não é bem nossa,
Mas que é mais de nosso Pai.
Nela nos deu de morar
Na eterna eternidade.
Bem como nos deu o corpo
P’ra morar aqui na terra:
Casa pequena e mortal
De dores, doenças, fístulas
E um dia derradeiro.
As epopeias constantes...

As diversas tantas casas
Alindando tudo em volta.
Jóias de telhado e telhas,
Belezuras de morar.
Cada uma tem um nome?
Se não, deveriam ter:
Casas grandiosas têm nome.

Saint-Exupéry na Ilha!
Quem diria, em Floripa!
Qual a praia em que ficou
O pequeno grande Príncipe?
Foi no Saco dos Limões,
Onde o mal se combatia:
Famigerado escorbuto?
Em qual das mais de cem, certas?
Zé Perri ia ao Campeche.
Lá. Na praia o mar respira.
Grandemente impassível.
Seus grãos olhos transparentes
A contemplar, lá nas praias,
Gerações que se sucedem,
Ocupadas em morrer.
Mar se esparrama na areia
Como língua de mariscos.
As gaivotas na gangorra
Das ondas que sobe-descem.
A infinitude das causas.
Na frente, o mar. Cheio d’água.

Elas. Casas. Muitas, tantas.
Ah! A gente sofre, sofre,
Muito sem querer querer.
Vivendo sempre epopeias...
Sei: entre o tudo e o nada
Há uma muita infinitude.
As ondas se assomam,
Se esticam, arrependidas.
No mar, as ilhas flutuam.
O mar é plano. Lisinho.
Lisurinha bem bonita
De acalmar o coração.
Eu estou bebendo o mar
Com os olhos sedentos
De alguma eternidade?
A incompletude humana...

Essa angústia que nos move...
(Não conheço nenhum médico
Que somente desopere!)
Ai! O horror! O horror! O horror!
O pobre homem, acamado,
Tem que morrer da doença,
Não da tentativa de cura.
E as casas que teve, ou não,
São trocadas habilmente
Pelo asséptico hospital.
Ai! Deus dê-me a morte boa
Na minha cama gostosa,
Com livros na cabeceira.
Não querendo nem a vida...
(Lá fora, um dia crocante.)

As casas. As casas. Tantas.
E lá, dentro das paredes,
Amor, limites e guia.
O acolhimento amoroso...
Há quantos séculos nós,
De verdade, nos amamos?
Aturdimento de mundo...
As cujas algumas coisas...
Mar encrespado de frio,
Mar em síncopes sinfônicas,
E se recolhe em suspiros?
Mar respirando em gorgulhos.
Maré sobre, sorrateira,
E um solitário a correr...

Mal não é quando pecamos,
Mas quando achamos que não.
O barulho do mar. Mar?
Lava a cabeça da gente.
Em Itaquaquecetuba
Eu perdi meu coração.
E minha pronunciação.
Luzes mortiças lá fora,
No meio da madrugada.
E o pensamento fininho,
A paciência bem pacienciosa
De pasto virando leite.
A areia bebe o mar,
Pescadores puxam rede,
Chuvinha de molhar bobo.

As muitas casas variadas,
Mas c’o mesmo coração.
E os tantos olhos, palavras,
São só de amor e carinho:
Não é aqui o Paraíso?
Bendito é o lugar, a casa,
Onde a menção do bom Deus
Foi elevada aos bons céus.
Mas minha toada é triste:
Estou cansado do mundo...
Se não for para ser bom,
Do que vale minha vida?
E lá posso acrescentar
Um côvado à minha altura?
E o mundo então se parece
Bem mais chato que chinelo
De gordo bem gordo. Gordo.
Cachorro corre na praia?
O céu se emenda no mar.
A polimultifonia
Dos grãos silêncios da praia.

Casas. Tantas, muitas casas.
Não de morar. De viver.
Como um túnel vai se abrindo,
Nós deslumbramos mistérios
Que insistem em não dizer
A razão por que vieram.
Beleza pentapontal
Das tão variadas orquídeas...
Reflexo torto das luzes
No mar que parece liso.
E esta poesia, bem ela,
Que é mosaico de palavras,
Pensamento heptassilábico
Do que acho que não sei.
Mas sei das casas. Das elas.
E sinto grandes saudades
Daquelas que não conheço.

Eu vejo o verde bem verde.
Eu verde o vejo bem vejo.
As casas. As casas.
Elas.


Campinas, 23/8/2014
Para Stélio e Tarcísia Granucci

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Poemas depois da despedida - Tomo X


Tens sido a inspiração
 
Ah, tens sido a inspiração,
Mas eu te quero esquecer.
Esvazio o coração:
Já teu não mais posso ser.
Mas me pego recordando,
De modo velado e brando,
O que teve de morrer.

Aquieto meus sentimentos,
Não quero com a dor bulir.
A dor tem mil e um inventos
Com os quais nos destruir.
Mas... de esquecer eu cansei;
Pois tu te foste, isto eu sei,
Para nunca mais sumir.
  
São Paulo, 20/4/11











 
Só há uma certeza

Na vida, só há uma certeza
Um dia todos morrerão.
E “a vida é curta”, com certeza,
Como bem já disse o refrão.
Qual a razão, pois, da trapaça
Que provocou nossa desgraça,
E estraçalhou meu coração?

São Paulo, 20/4/11




 







Tanto do que eu tenho é teu
  
Tanto do que eu tenho é teu!
Por certo me recriaste!
Em meu ser bruto, o desbaste,
Foi por ti que sucedeu.
Acho também que o reverso
Certamente aconteceu.
Em meu olhar, em meu verso,
Outra vida em ti nasceu.
Por que fomos nos perder?
Como posso te esquecer,
Se tanto de ti sou eu?

São Paulo, 20/4/11




 








Percorro os mesmos caminhos

Percorro os mesmos caminhos
Por onde andávamos juntos;
Mil olhares, mil carinhos,
Falando de mil assuntos.
As ruas são pelourinhos
E nós, agora, defuntos.

Percorro os mesmos caminhos...
Por onde andávamos juntos,
Agora vamos sozinhos...

 
São Paulo, 20/4/11




 





 



Se é raiva?

Se é raiva o que sinto? É raiva!
Mas também é pena, é dó!
A dor me veio em saraiva,
Meu peito, moído a mó.
Não tinha de ser assim!
Se tu cuidasses de mim,
Eu não estava tão só...

São Paulo, 20/4/11




 








Não quero sorrir
 
Ai! Não! Não quero sorrir!
Não, não quero brincar!
Enquanto a dor não sumir,
Eu quero a dor desposar.
Ah! Que me infernize a vida!
Do fel, a plena medida!
‘stou morto... Vou me enterrar...
 
São Paulo, 20/4/11




 





 



Se te odeio?
 
Se te odeio? Se te odeio?
Não foste mau suficiente...
O amor se meteu no meio
E isto me pôs demente!
Mas a lucidez me volta
E em vez de sentir revolta,
Tu me és indiferente.
 
São Paulo, 20/4/11




 








Dói-me
 
Dói-me o amor dividido!
A ternura repartida...
Daí a alma aturdida...
Busco entender os motivos,
Mesmo que torpes, furtivos...

Arde-me a farsa do amor!
Os falsos bons sentimentos!
Ah! E, mais que tudo, o horror
Dos enganos virulentos!
Ai! perdeste! E – ai!– perdi!
Mas foste o algoz... e eu sofri...
 
São Paulo, 20/4/11




 





 



No amor traído
 
Quem não foi no amor traído,
Erga os braços para o céu!
O amor o mal cometido
Encobre com denso véu.
Ele disfarça o engano!
É impiedoso tirano!
Já me vês, do amor, incréu.


São Paulo, 20/4/11




 









Desculpas
 
Não, não me venhas com desculpas...
Não há razão que justifique!
Dizes que também tenho culpa,
Mas não pus eu o barco a pique!
Da dor que agora nós sentimos
Colocaste tu os arrimos.

Claro que errei! E quem não erra?
Atire ele a primeira pedra!
Pelo sagrado que há na terra!
Bem diverso é o mal que em mim medra...
Não compares teu erro ao meu!
Pois, mesmo errando, eu fui só teu!

 São Paulo, 20/4/11